A Rede

Que culpa temos nós dessa planta da infância, 

de sua sedução, de seu viço e constância?

 (Jorge de Lima)

 

Fim de tarde. Ela ainda sujeita à tirania da estrada esburacada e poeirenta. Aos pulos, respirando com dificuldade, os pulmões em brasa. O corpo inteiro uma imensa dor. 

Além do corpo, tudo lhe pesava: os encontros infrutíferos, o muito a resolver e decidir.

Descansar, relaxar, recuperar as forças, era tudo que desejava. Mas não de qualquer jeito. A certeza de que o colchão do quarto do hotel iria surrá-la era insuportável. Colchão velho, com marcas e manchas de muitos outros corpos, e a sugar todos para o centro afundado. Impossível um contato agradável com uma superfície desgastada, que não sabe mais o que seja dar prazer. 

Cama que não acolhe. 

Pune. 

Acostumada a lençóis macios em colchões solidários, sofria em todas as camadas da pele. Na carne.  Seu corpo implorava por aconchego, por abraços que a envolvessem calorosamente — o antídoto para os males que lhe pesavam tanto. Tudo que ela queria era ser confortada.

Entrou no quarto. O ar viciado, um misto de mofo e de bafos antigos, a atingiu. Sentiu nojo.

Precisava se limpar, jogar fora tudo que tinha se acumulado durante o dia. 

Tomou um banho — um arremedo de banho. 

Fios miseráveis, quase gelados, escorreram por seu corpo magoado.

O sabonete cheirava mal e deixava uma gordura queimando a pele. 

A toalha de banho, mínima e muito fina, não enxugava. Espalhava a umidade.

Quarto apertado, de paredes sujas e descascadas. Janela emperrada. Abandono. Prisão.

Decidida a não encostar na cama, forrou o chão com uma colcha, pegou um travesseiro e se deitou. 

Superfície plana e uniforme. Dureza pura.

Novas dores, quentes e pontiagudas, atacaram sua pele. Invadiram seu corpo. Ela se contraía. Gemia. Ah, se fossem os gemidos do prazer…

Apesar dos pesares, dormiu. 

Sonhou com a casa dos pais.

Num quarto amplo, limpo, perfumado pelas madressilvas do jardim, uma rede se oferecia — aberta e generosa. A franja de crochê, embalada pela brisa fresca que as janelas convidavam a entrar, se movimentava languidamente. Era um convite ao encontro, à entrega a contatos delicados, íntimos e bem conhecidos. 

Entrou na rede como se entra num abraço caloroso, sensual. Suas ávidas mãos acariciavam o tecido, corriam soltas pela superfície, sentiam cada relevo. Ondas de calor a tomavam enquanto o tecido cedia sob o peso do seu corpo, se acomodando, sem deixar de sustentá-lo. 

Em meio a flashes de bons momentos ali vividos, brincadeiras da infância afloraram: a rede como esconderijo ou como canoa num mar bravio com seu pai a sacudi-la enquanto cantava “a canoa virou”. Ela e seus irmãos riam, soltavam gritinhos e pediam mais, mais.

Acordou aos gritos.

Custou a entender que estivera sonhando. Onde estava?

Viu os ganchos. 

Seus olhos iam de um ao outro até tudo fazer sentido.

Levantou-se e desceu à recepção.

A moça do balcão a ouviu, desapareceu por alguns minutos e voltou carregando uma rede branca. 

Ela a levou para o quarto com cuidado, muito cuidado. 

Armou-a nos ganchos.

Rede pequena, estreita, de tecido áspero e sem franja. 

Não importava. 

Deitou-se.

O corpo reconheceu o lugar que não feria, que nada exigia, que se dava.

Suas costas cederam, as pernas se esticaram e a cabeça afundou no tecido.

Envolvida num abraço conhecido, relaxou. 

Dormiu.

Rio, 13/08/2026

 

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