Amada

Um dia, ganhei o livro Amada, de Toni Morrison, Prêmio Pulitzer de 1988. Não conhecia nem o livro e nem a autora. Livro de escrita fluida, delicada mas de temática forte. Ela tece a vida de uma família desestruturada cujo lar é atormentado por um espírito malévolo. Baseou-se na historia de uma escrava fugitiva que, na iminência de ser recapturada, mata sua filha de dois anos para poupá-la de uma vida de escravidão. 

A narrativa não é linear. Há flashbacks, que ilustram o passado de cada personagem, e servem de contraponto para o que acontece na casa.  Gostei, memória como fonte criativa! 

Amada toca na dinâmica do relacionamento difícil entre mãe e filha. Em grau bem menor, também vivi dificuldades com minha mãe. Lutei contra a repressão, mas cresci me sentindo sem voz, às vezes invisível. A personagem principal, Sethe, é prisioneira das memórias, não escapa das lembranças do tempo de escravidão e do que fez — matar a filha bebê. Ela vive livre em Ohio, com uma outra filha, Denver, e a sogra.  Seu novo lar é assombrado pelo fantasma de seu bebê, enterrado sem nome e que passa a existir com o nome de Amada — presença nefasta que altera a energia da casa. Boas ou más, lembranças nos acompanham, dando-nos chão e por vezes nos jogando em abismos.

A autora Toni Morrison, negra, filha de escravos fugidos na época da Depressão, teve melhor sorte. Seus pais se fixaram em Ohio, num bairro não segregado. As histórias contadas pelo pai foram cruciais para definirem o estilo e escolhas temáticas da escritora.

Ao ler sobre Toni Morrison, conheci a mulher que não mediu esforços para se tornar escritora. Seus livros, consagrados pela crítica literária, eram menosprezados pelos brancos racistas e, apesar de premiados, não eram incluídos em currículos escolares. Mas ela persistiu e foi recompensada —  ganhou o Nobel de Literatura de 1993 por “dar vida a aspectos essenciais da realidade americana”. A primeira negra a receber tal prêmio! Ao agradecer, ela afirmou que “Todos os falantes de uma língua devem cuidar de sua efetividade, de sua capacidade de interferência na vida de uns sobre os outros.” Palavras atuais, para todos que lutam por uma língua inclusiva, neutra, não opressora. 

Leiam os livros dessa mulher de grande senso crítico, dona de uma visão dolorosamente clara sobre como a injustiça funciona e perpetua tudo. 

 3/11/2023

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