Crônicas
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Participar de uma Oficina Literária
Participar de uma oficina literária é mais do que aprimorar habilidades de escrita. É habitar o espaço do acolhimento, de trocas e estímulos entre pessoas que, como eu, querem desenvolver sua expressão, sua fala. Há liberdade e segurança para abordar qualquer assunto, sem medo de julgamentos ou críticas. Na oficina sinto minha voz, sinto que me ouvem. Muito peso é descartado e espaços se abrem para o novo. O convívio com mestre e companheiros motiva e frutifica. Não estou em busca de dinheiro ou fama, mas de satisfação e plenitude — sentir minha vida pulsando com o ato de criar. Somos escritores em crescimento compartilhando a mesma viagem: a da…
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Enquanto Esperas
Se pudesses, conversarias com ela. Sugeririas temas, farias observações que talvez lhe dessem coragem. Mas nasceste para abrigar, viver calada. És silêncio e memória. Conheces bem o que ela guarda e o que ela teme mostrar. Vês quando ela te abre, lê um trecho antigo e fecha rápido, como se fugisse de si mesma. Teu medo maior é que ela decida se livrar de tudo, fazer uma faxina, te esvaziar, rasgar ou queimar cada página. Mas, de que vale um bom texto sem leitura? Não é para ti que ela produz. És pouco. A voz dela precisa sair, gritar no mundo. Lembras daquele poema que ela dedicou a uma amiga…
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Duas Vozes
INTEIRA Porta destrancada. Que bom. Mostro o boletim — tudo nota dez. Ela vai gostar. Tem que gostar. Entro. O chão range. Ela não levanta os olhos. Lá dentro era escuro, não de luz — de atenção. Ela está de cara fechada. Melhor ir para o quarto. Jogo a mochila no chão. Um barulho pequeno. Nada. Na escola eu era excelente. Hoje sei por quê. Cadernos impecáveis. Letra redonda. Respostas completas. Me viam. Seguro o boletim com cuidado. Não pode amassar. — É para assinar. Ela o olha. Assina. Devolve. — Não fizeste mais que tua obrigação. Frase seca. Sem abraço. Meus irmãos entram correndo. Ela pergunta se estão com…
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Escrevo, tenho voz
Desde bem pequena me apaixonei pelas letras. Caladas, eram movimento e leveza. Rabiscos mágicos, em folhas e folhas, embalavam minhas mãos. Durezas perdiam arestas. O silêncio falava alto em mim, e me bastava. Eu as regia, elas obedeciam. Se transformaram em sílabas, palavras, frases. Falaram comigo! Monotonia? Não mais. Eram o brilho intenso do meu quarto. Criei personagens, diálogos sobre o que era meu — e eu ainda não sabia. Até confidências eu fiz! Durante muito tempo tive saudades das minhas vogais com cedilha, consoantes com acento circunflexo… Mas, o sentido se impôs. Aceitei. Respeitei. Ágeis, se juntavam em frases para serem lidas, ouvidas e entendidas. Minha brincadeira passou a…
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Existe um porquê
– Uma homenagem à inesquecível Rita Lee – — Bem! Onde cê tá?! — Na cozinha! — Sonhei com a Rita Lee! Foi o maior barato. — Nossa! Você só fala em Rita Lee, parece disco enguiçado. — Segura o ciúme, gatinha… Vai fazer greve de fome? — Lá vem você com bobagem. E o sonho? — Ah! Muito bom. Ela chegou sorrindo, aquele jeitão dela, o cabelo vermelho — não, não foi na época do cabelo vermelho, foi antes, o cabelo natural. — Quando ela era jovem, e já incomodava todo mundo. — Para com isso… Ela veio cantarolando meu bem você me dá água na boca. Uau, arrepiei! …
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Num sebo
— Novato, arrume a loja. Pilha de vendas, lixo e rodízio. Nada de sentimentalismo. — Ih, um Autran Dourado! A barca dos homens… Partida sem volta, destino incerto. Últimos lugares. — Isso. Vendas. — E esse Sabino? O homem nu. — Produto puro. Zero disfarces. — Nada a esconder. Só verdade crua. — Transparência total. Produto sem embalagem. — Esse é meu. Minha cara. — A cidade vazia… — Desconto de 100%. Solidão incluída. — Melhor: compre espaços, leve solidão grátis. — E esse aqui, Morro do isolamento? Velho, mas funciona. — Apartamentos exclusivos. Vizinhos? Nenhum. — Vista panorâmica. Preço: silêncio eterno. — O…
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O preço da correção
No hall de entrada de um edifício, uma moradora, à espera do táxi, observa um rapaz se aproximar do porteiro e fazer um elogio à “empregada” da patroa que o esperava na calçada. A mulher o corrige, sem perda de tempo: — Funcionária doméstica, por favor. O rapaz se volta, surpreso. Desconcertado, se pergunta: o que eu disse de errado? Tinha que falar de forma mais elegante? Doméstica e funcionária…não é tudo a mesma coisa? O fato é que muitos acreditam que o politicamente correto nasceu do respeito. Pode ser. O grande problema é como vem sendo usado: cheio de manias de pureza. É uma cartilha que poucos sabem ler.…
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O combate dos tempos
Entrei no hospital com medo. Dores me avisavam que algo grave acontecia. Eu sabia que encontraria ajuda, mas atravessar aquela porta significava entregar minha autonomia. A urgência anulou o tempo para negociações ou acordos. Teria que enfrentar anestesia, cirurgia, e despertar em outra realidade: a de ver meu poder de decisão entrar em suspensão. Aceitar que dependeria de outros para tudo era inevitável. Um corpo habituado à independência ficou imóvel, ligado a fios, tubos, soro, acesso venoso e que tais. A pressa que eu conhecia e administrava, minha velha companheira, batia contra um muro: o tempo real do hospital—lento, metódico, impessoal e descontínuo. É feito de fragmentos. Dormir nunca é…
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Ruínas que ainda respiram…
Quando os muros subiram na Ilha Grande, não era só pedra e cimento que se empilhava. Subia ali uma ideia: a de que o erro se tranca, a de que o castigo purifica, a de que a violência tem hora, lugar e justificativa. Inaugurado no início do século XX, o presídio parecia um mundo à parte, cercado de mar por todos os lados. Mas o que se confinava ali não ficava ali. Vieram os presos políticos, os comuns, os esquecidos. As grades, os gritos, os castigos que o Estado não estampava em papel eram gravados na carne. O lugar transformou-se em campo de experimentos sociais onde a ideia de dignidade…
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Voz Engasgada
Odeio quando me calo e a garganta pesa como se carregasse pedras. Odeio o silêncio que me cresce por dentro feito mofo. A oportunidade vem, linda, inteira, pousa na minha frente como um pássaro — e eu não movo um músculo. Só observo, muda. Me odeio por isso. Na infância, eu sabia as respostas. As palavras estavam ali, alinhadas, esperando. Mas o peito apertava, a mão suava, e a voz sumia. Uma colega dizia o que eu também sabia, e ganhava sorrisos. Eu ficava com a mão erguida por dentro. Ninguém via. Na adolescência, doía ainda mais. O corpo crescia, o peito se armava em curvas, mas por dentro eu…