• Silbo Gomero de Lima

    Fui à Lima em busca de ceviche e para conhecer mais da gastronomia peruana que vem encantando o mundo.  Para minha surpresa, encontrei também um mundo desconhecido: povos que viveram  naquela região há milhares de anos e que, numa terra árida, dominavam técnicas de irrigação capazes de transformar a paisagem. Nos museus, as cerâmicas me impressionaram. Tinham uma modernidade absurda. Nelas estavam crenças, cenas do cotidiano, animais e figuras humanas. Os grandes mantos mortuários, feitos de algodão e fibras de camelídeos, pareciam desafiar o tempo.  Saí de lá pensando no quanto conhecia pouco da História da América do Sul. Em meu último dia em Lima visitei o Museu Larco, alojado…

  • Meus guardados

    Fabriano, Ingres, Canson, Strathmore, Hahnenmühle Artesanal. Todos  papeis para arte, com texturas, cores e gramaturas diferentes. E mais, papel japonês de arroz e o papel especial para cartas. Tenho todos os acima citados. Livres de ácidos, sobrevivem muito bem em nosso clima úmido e em gavetas de meu escritório caseiro.  Staedler Karat, Caran D’Ache, Faber-Castel Da Vinci, lápis de cor que tenho. Pensando nos netos, comprei um conjunto Lamy 3plus com 12 cores básicas na Loja Bauhaus de Berlim. Grossos, curtos e de boa pega, são indicados para as pequenas mãos de crianças. Os meus netos já usaram e, sob protestos, deixaram sob minha guarda.   Como  esquecer a fase das…

  • Nã, nani, nanão

    Sábado, Dia dos Namorados. Vou jantar no Candelabro Italiano, um novo restaurante de Copacabana elogiado como típico da “era de ouro” de um Posto 5 boêmio. Caramba, reservar quinze dias antes?!    Num tubinho de tecido botoné, turquesa e com um coque banana de profissional, enfrentei minha mãe-fera.   — Onde vais, com quem e para fazer o quê.  Ah, ela quer estragar tudo.  Respirei fundo, —  Vou jantar com Raul — e pensei: não quero a senhora conosco.    Minha mãe me deixava louca. Deus me livre conversar no telefone, fosse com quem fosse. Ela ouvia tudo e depois citava, tintim por tintim, o que eu tinha dito em contextos…

  • Persianas

    O encontro da semana será no Leblon.  Gostei, mais perto de casa.  O tema do encontro será prosa poética. Alguém já tinha dito que alguns textos meus são assim. Como assim? Nunca pensei nisso. Escrevo primeiro. Entendo depois.  Apartamento luxuoso e decorado com extremo bom gosto. Nada é excessivo. Cumprimentei os companheiros, e me sentei. Eles estavam bem adiantados, discutindo leituras. O entusiasmo com as nuanças que o poético permite era a tônica do encontro. Eu sem exemplos para dar, perdida.  Foi quando meus olhos atravessaram a rua e bateram na varanda de um apartamento, daqueles que ocupam todo o andar. Lá, uma jovem, limpava o guarda-corpo. Nossos olhares se…

  • Minha Escrita

    Antes de ter voz, tive escrita. Escrever sempre foi meu disfarce mais perfeito. Fui uma menina silenciosa, insegura, que temia o som das próprias palavras. Mas no papel, a mágica acontecia: minhas redações, interpretações de textos e análises históricas falavam por mim com uma coragem que minha boca não tinha. Minha fala era miúda, mas minha escrita já era imensa. Assim cresci: estudando muito, falando pouco. Aprendi que a escrita me revelava para os outros e para mim mesma. Adorava as aulas de Português! Escrever com estilos diferentes, destrinchar parágrafos classificando orações, identificar sujeitos e predicados eram jogos divertidos.  Naquela época, sem o recurso da múltipla escolha, tinha que ler…

  • Falta Um

    Ele chegou em casa com um embrulho. Algo raro, quem gostava de embrulhos era ela.  Ela, esperançosa, aprontou o sorriso. Bem… Ele lhe mostrou um lindo suporte de madeira com sete cachimbos – um deles com o bojo esculpido, e de tom quase negro. Nem percebeu o desapontamento dela. Só tinha olhos para seus escolhidos. — Mais fumo? —  Mas com vantagem, Uchí. Não vou tragar mais.  — Veremos. Fuma lá fora. Aqui só cheiros bons. Ele levou os cachimbos para uma mesinha redonda ao lado da única poltrona da sala. Ela murmurando, “só muda o fedor, sai um, entra outro…” Os cachimbos brilhavam na sala de estar da casa…

  • A Copa na Minha Vida

    1958 Silêncio na sala. Nós de olho no carrilhão da Vovó e bem perto do rádio. Titio a girar o botão sintonizador em busca da frequência certa. A transmissão vinha com chiados, a voz do locutor desaparecendo por segundos e reaparecendo como se atravessasse um oceano. A Suécia parecia muito mais distante do que realmente era.   Meus irmãos e eu grudamos no rádio. O tio se abanava sem parar. O carrilhão cantou 15h15 — o jogo vai começar.  Minha mãe fugiu pra cozinha.  A estática me deixou ouvir  “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve”…e mais nada. Arrepiada, continuei a cantar o Hino todo — mão sobre o coração e lágrimas…

  • Enquanto não me levanto

    Ah, meu banco, amigo querido que me acompanha, me leva a devaneios. Sento-me. Perfumes do jasmim em flor me alcançam. O zumbido de abelhas trabalhando. E o incansável beija-flor, minúsculo, querendo um tanto do néctar.  Um verde bonito, farto e perfumado me cerca.  Quieta, calada, observo.  Choveu. Nas bordas das folhas da roseira gotinhas iguais se juntaram como contas de cristal líquido.  Olho as formigas-nômades, ágeis e inquietas fazendo a correição. Uma fileira compacta, indo, indo, indo.  Formigas destinadas a viver mudando, sempre, sempre, sempre.  Para onde vão? Os jacus chegaram. Feiosos, de voos curtos e deselegantes. Vão comer as alfaces.  Não ligo. A terra é deles, a invasora sou…

  • Do Jeito da Branca

    Recentemente aprendi que cozinhar exige decisões que não estão na receita. Minha amiga Branca as chama de equações culinárias. E deu um exemplo:  — Se a receita pede gemas, o que fazer com as claras? Congele-as para uso futuro, ficam perfeitas. Eu estava em Quebec visitando Branca, minha amiga-irmã. Precisei de coragem para ir vê-la. Inverno, dedos doem…mas fui.  No primeiro dia, conheci uma nevasca. Ficamos trancadas em casa, vendo tudo à nossa volta embranquecer.  Minha amiga resolveu o problema: — Já que hoje o branco impera, vou fazer o bolo de claras da minha bisavó.  E contou que a bisa tinha sido pâtissière da família do czar Nicolau II.…

  • A Rede

    Que culpa temos nós dessa planta da infância,  de sua sedução, de seu viço e constância?  (Jorge de Lima)   Fim de tarde. Ela ainda sujeita à tirania da estrada esburacada e poeirenta. Aos pulos, respirando com dificuldade, os pulmões em brasa. O corpo inteiro uma imensa dor.  Além do corpo, tudo lhe pesava: os encontros infrutíferos, o muito a resolver e decidir. Descansar, relaxar, recuperar as forças, era tudo que desejava. Mas não de qualquer jeito. A certeza de que o colchão do quarto do hotel iria surrá-la era insuportável. Colchão velho, com marcas e manchas de muitos outros corpos, e a sugar todos para o centro afundado. Impossível…