• Sobre O Outro, conto de Rubem Fonseca

    O conto de Rubem Fonseca,  O Outro, é uma narrativa em primeira pessoa – relato claro, objetivo de alguém que vive inteiramente absorvido pelo trabalho.  Os três primeiros parágrafos mostram claramente que o narrador é um executivo de alto nível que trabalha muito e fica sempre com ”a impressão de que não havia feito nada de útil.” Leva trabalho para casa para não perder tempo e feriados o irritam. Esgotado, ansioso, e muito exigido também por ele mesmo, seu organismo não aguenta e a doença aparece: problemas cardíacos e excesso de peso. O conto inteiro lida com os problemas desse homem que vive em função do trabalho. Em momento algum…

  • Enquanto Esperas

    Se pudesses, conversarias com ela. Sugeririas temas, farias observações que talvez lhe dessem coragem. Mas nasceste para abrigar, viver calada. És silêncio e memória. Conheces bem o que ela guarda e o que ela teme mostrar. Vês quando ela te abre, lê um trecho antigo e fecha rápido, como se fugisse de si mesma. Teu medo maior é que ela decida se livrar de tudo, fazer uma faxina, te esvaziar, rasgar ou queimar cada página. Mas, de que vale um bom texto sem leitura? Não é para ti que ela produz. És pouco. A voz dela precisa sair, gritar no mundo. Lembras daquele poema que ela dedicou a uma amiga…

  • M15-A7 Duas Vozes

    INTEIRA Porta destrancada. Que bom.  Mostro o boletim — tudo nota dez. Ela vai gostar. Tem que gostar. Entro. O chão range.  Ela não levanta os olhos.   Lá dentro era escuro, não de luz — de atenção.  Ela está de cara fechada. Melhor ir para o quarto.  Jogo a mochila  no chão. Um barulho pequeno.  Nada. Na escola eu era excelente. Hoje sei por quê.  Cadernos impecáveis. Letra redonda. Respostas completas. Me viam. Seguro o boletim com cuidado. Não pode amassar. — É para assinar. Ela o olha. Assina. Devolve.  — Não fizeste mais que tua obrigação. Frase seca. Sem abraço.  Meus irmãos entram correndo. Ela pergunta se estão com…

  • Escrevo, tenho voz 

    Desde bem pequena me apaixonei pelas letras. Caladas, eram movimento e leveza. Rabiscos mágicos, em folhas e folhas, embalavam minhas mãos.  Durezas perdiam arestas. O silêncio falava alto em mim, e me bastava.   Eu as regia, elas obedeciam. Se transformaram em sílabas, palavras, frases. Falaram comigo! Monotonia? Não mais. Eram o brilho intenso do meu quarto. Criei personagens, diálogos sobre o que era meu  — e eu ainda não sabia.  Até confidências eu fiz!  Durante muito tempo tive saudades das minhas vogais com cedilha, consoantes com acento circunflexo… Mas, o sentido se impôs.  Aceitei. Respeitei.  Ágeis, se juntavam em frases para serem lidas, ouvidas e entendidas. Minha brincadeira passou a…

  •  O Encontro 

    Andei muito. Pensei mais ainda. Como fui marcar esse encontro? Chegar lá e dizer Sou Sininho, a do e-mail? É ridículo. Mesmo esse nome sendo o motivo pelo qual ele gostou de mim. Peter Pan foi seu herói de infância, daí seu codinome. Isto tudo é um absurdo. Conhecer alguém pela internet, manter encontros virtuais durante três meses, conversando sobre tudo, me abrindo. Talvez ele nem exista! Sim, de fato uma pessoa recebia minhas mensagens e respondia quase imediatamente. Parecia gentil, educado e atencioso. Quase carinhoso. É, bem carinhoso. Seu modo de escrever e as palavras usadas dão provas disso.  Será ele quem parece ser? É fácil mentir diante de…

  • Existe um porquê

    – Uma homenagem à inesquecível Rita Lee – — Bem! Onde cê tá?! — Na cozinha!  — Sonhei com a Rita Lee! Foi o maior barato. — Nossa! Você só fala em Rita Lee, parece disco enguiçado.  — Segura o ciúme, gatinha… Vai fazer greve de fome?  — Lá vem você com bobagem. E o sonho? — Ah! Muito bom. Ela chegou sorrindo, aquele jeitão dela, o cabelo vermelho — não, não foi na época do cabelo vermelho, foi antes, o cabelo natural.  — Quando ela era jovem, e já incomodava todo mundo.  — Para com isso… Ela veio cantarolando meu bem você me dá água na boca. Uau, arrepiei! …

  • Num sebo

    — Novato, arrume a loja. Pilha de vendas, lixo e rodízio. Nada de sentimentalismo. — Ih, um Autran Dourado! A barca dos homens… Partida sem volta, destino incerto.             Últimos lugares. — Isso. Vendas. — E esse Sabino? O homem nu. — Produto puro. Zero disfarces. — Nada a esconder. Só verdade crua. — Transparência total. Produto sem embalagem. — Esse é meu. Minha cara. — A cidade vazia… — Desconto de 100%. Solidão incluída. — Melhor: compre espaços, leve solidão grátis. — E esse aqui, Morro do isolamento? Velho, mas funciona. — Apartamentos exclusivos. Vizinhos? Nenhum. — Vista panorâmica. Preço: silêncio eterno. — O…

  • Sobreviventes

    Depois de hora e meia enfiada num ridículo roupão descartável, me esforçando para não cair da maca, e sentindo em meu corpo o frio do gel e a pressão do bastão do ultrassom nas mãos  da médica também fria e gelada, entrei no minúsculo elevador da clínica pensando no desprazer que sinto por estas revisões médicas. Me fazem zilhões de perguntas que não me deixam esquecer a idade que tenho. Além do mais, ainda estou sob o impacto de uma cena muito recente:  meu clínico me parabenizando pela passagem de meu aniversário. Ao me abraçar, querendo dar leveza à minha nova dezena, chamou os pedidos de exames de imagem e…

  • Confesso que … vivo

    Vida vivida, coleção de lembranças. As primeiras: ecos difusos, flashes sem significância. Depois, prazeres acanhados, em choque com o espanto da inocência. Custei a entender que a excitação se oculta, espera o momento certo,  e retorna para provocar e se insinuar, com manhas e artifícios. Muitos ensinamentos viriam dar nome a desconhecidas emoções, e a outras inventar. Lembro da praia, jogar vôlei, ser vista, e pedir aos deuses para ser desejada. Fui atendida. Beijei, fui beijada. Amada. Cheguei muito perto do céu! Encontros, abraços, beijos, e dias inteiros pensando em mais palavras doces sussurradas, nas mãos que me mapeavam, me enlouqueciam, me encantavam. Fantasiar, imaginar, me perder em sentimentos, me…

  • O Abandono como Gesto Fundador

    Paro no sinal. Um homem atravessa a rua aos gritos: — Esse país não presta! Só tem ladrão! Políticos safados! Não sei para quem ele fala. O sinal abre, acelero. O homem fica para trás. As palavras não. Continuam ali, como coisas que atiramos fora e depois fingimos não reconhecer. Mais tarde, termino Frankenstein, de Mary Shelley. Uma cena breve e brutal não me deixa: a criatura abre os olhos e seu criador, Victor, recua. Não suporta ver o que criou. Abandona. O resto vem daí. Victor não é um caso isolado. É apenas alguém com poder para criar e nenhuma disposição para ficar. Esse gesto se repete em épocas,…