• Amada

    Um dia, ganhei o livro Amada, de Toni Morrison, Prêmio Pulitzer de 1988. Não conhecia nem o livro e nem a autora. Livro de escrita fluida, delicada mas de temática forte. Ela tece a vida de uma família desestruturada cujo lar é atormentado por um espírito malévolo. Baseou-se na historia de uma escrava fugitiva que, na iminência de ser recapturada, mata sua filha de dois anos para poupá-la de uma vida de escravidão.  A narrativa não é linear. Há flashbacks, que ilustram o passado de cada personagem, e servem de contraponto para o que acontece na casa.  Gostei, memória como fonte criativa!  Amada toca na dinâmica do relacionamento difícil entre…

  • Epifanias no conto de Ruth Lifschits, A Dança das Letras

    Bruno Fernando Riffel O texto “A Dança das Letras” contém várias epifanias — momentos de revelação ou compreensão súbita que transformam a visão da narradora sobre o mundo. Aqui estão algumas epifanias identificadas: 1. **Descoberta da Leitura**: A narradora, de forma inesperada, percebe que sabe ler quando afirma que “as letras falaram dentro da minha cabeça”, revelando como a leitura emerge naturalmente para ela, sem a mediação direta de um professor ou escola. 2. **Conexão entre Letras e Sentidos**: Ao se apaixonar pelas formas das letras e perceber sua capacidade de falar, a narradora vivencia uma epifania sobre como os símbolos podem se transformar em significado e voz. 3. **Primeira…

  • Participar de uma Oficina Literária

    Participar de uma oficina literária é mais do que aprimorar habilidades de escrita. É  habitar o espaço do acolhimento, de trocas e estímulos entre pessoas que, como eu, querem desenvolver sua expressão, sua fala. Há liberdade e segurança para abordar qualquer assunto, sem medo de julgamentos ou críticas. Na oficina sinto minha voz, sinto que me ouvem. Muito peso é descartado e espaços se abrem para o novo. O convívio com mestre e companheiros motiva e frutifica. Não estou em busca de dinheiro ou fama, mas de satisfação e plenitude — sentir minha vida pulsando com o ato de criar. Somos escritores em crescimento compartilhando a mesma viagem: a da…

  • Sobre O Outro, conto de Rubem Fonseca

    O conto de Rubem Fonseca,  O Outro, é uma narrativa em primeira pessoa – relato claro, objetivo de alguém que vive inteiramente absorvido pelo trabalho.  Os três primeiros parágrafos mostram claramente que o narrador é um executivo de alto nível que trabalha muito e fica sempre com ”a impressão de que não havia feito nada de útil.” Leva trabalho para casa para não perder tempo e feriados o irritam. Esgotado, ansioso, e muito exigido também por ele mesmo, seu organismo não aguenta e a doença aparece: problemas cardíacos e excesso de peso. O conto inteiro lida com os problemas desse homem que vive em função do trabalho. Em momento algum…

  • Enquanto Esperas

    Se pudesses, conversarias com ela. Sugeririas temas, farias observações que talvez lhe dessem coragem. Mas nasceste para abrigar, viver calada. És silêncio e memória. Conheces bem o que ela guarda e o que ela teme mostrar. Vês quando ela te abre, lê um trecho antigo e fecha rápido, como se fugisse de si mesma. Teu medo maior é que ela decida se livrar de tudo, fazer uma faxina, te esvaziar, rasgar ou queimar cada página. Mas, de que vale um bom texto sem leitura? Não é para ti que ela produz. És pouco. A voz dela precisa sair, gritar no mundo. Lembras daquele poema que ela dedicou a uma amiga…

  • M15-A7 Duas Vozes

    INTEIRA Porta destrancada. Que bom.  Mostro o boletim — tudo nota dez. Ela vai gostar. Tem que gostar. Entro. O chão range.  Ela não levanta os olhos.   Lá dentro era escuro, não de luz — de atenção.  Ela está de cara fechada. Melhor ir para o quarto.  Jogo a mochila  no chão. Um barulho pequeno.  Nada. Na escola eu era excelente. Hoje sei por quê.  Cadernos impecáveis. Letra redonda. Respostas completas. Me viam. Seguro o boletim com cuidado. Não pode amassar. — É para assinar. Ela o olha. Assina. Devolve.  — Não fizeste mais que tua obrigação. Frase seca. Sem abraço.  Meus irmãos entram correndo. Ela pergunta se estão com…

  • Escrevo, tenho voz 

    Desde bem pequena me apaixonei pelas letras. Caladas, eram movimento e leveza. Rabiscos mágicos, em folhas e folhas, embalavam minhas mãos.  Durezas perdiam arestas. O silêncio falava alto em mim, e me bastava.   Eu as regia, elas obedeciam. Se transformaram em sílabas, palavras, frases. Falaram comigo! Monotonia? Não mais. Eram o brilho intenso do meu quarto. Criei personagens, diálogos sobre o que era meu  — e eu ainda não sabia.  Até confidências eu fiz!  Durante muito tempo tive saudades das minhas vogais com cedilha, consoantes com acento circunflexo… Mas, o sentido se impôs.  Aceitei. Respeitei.  Ágeis, se juntavam em frases para serem lidas, ouvidas e entendidas. Minha brincadeira passou a…

  •  O Encontro 

    Andei muito. Pensei mais ainda. Como fui marcar esse encontro? Chegar lá e dizer Sou Sininho, a do e-mail? É ridículo. Mesmo esse nome sendo o motivo pelo qual ele gostou de mim. Peter Pan foi seu herói de infância, daí seu codinome. Isto tudo é um absurdo. Conhecer alguém pela internet, manter encontros virtuais durante três meses, conversando sobre tudo, me abrindo. Talvez ele nem exista! Sim, de fato uma pessoa recebia minhas mensagens e respondia quase imediatamente. Parecia gentil, educado e atencioso. Quase carinhoso. É, bem carinhoso. Seu modo de escrever e as palavras usadas dão provas disso.  Será ele quem parece ser? É fácil mentir diante de…

  • Existe um porquê

    – Uma homenagem à inesquecível Rita Lee – — Bem! Onde cê tá?! — Na cozinha!  — Sonhei com a Rita Lee! Foi o maior barato. — Nossa! Você só fala em Rita Lee, parece disco enguiçado.  — Segura o ciúme, gatinha… Vai fazer greve de fome?  — Lá vem você com bobagem. E o sonho? — Ah! Muito bom. Ela chegou sorrindo, aquele jeitão dela, o cabelo vermelho — não, não foi na época do cabelo vermelho, foi antes, o cabelo natural.  — Quando ela era jovem, e já incomodava todo mundo.  — Para com isso… Ela veio cantarolando meu bem você me dá água na boca. Uau, arrepiei! …

  • Num sebo

    — Novato, arrume a loja. Pilha de vendas, lixo e rodízio. Nada de sentimentalismo. — Ih, um Autran Dourado! A barca dos homens… Partida sem volta, destino incerto.             Últimos lugares. — Isso. Vendas. — E esse Sabino? O homem nu. — Produto puro. Zero disfarces. — Nada a esconder. Só verdade crua. — Transparência total. Produto sem embalagem. — Esse é meu. Minha cara. — A cidade vazia… — Desconto de 100%. Solidão incluída. — Melhor: compre espaços, leve solidão grátis. — E esse aqui, Morro do isolamento? Velho, mas funciona. — Apartamentos exclusivos. Vizinhos? Nenhum. — Vista panorâmica. Preço: silêncio eterno. — O…