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Existe um porquê
– Uma homenagem à inesquecível Rita Lee – — Bem! Onde cê tá?! — Na cozinha! — Sonhei com a Rita Lee! Foi o maior barato. — Nossa! Você só fala em Rita Lee, parece disco enguiçado. — Segura o ciúme, gatinha… Vai fazer greve de fome? — Lá vem você com bobagem. E o sonho? — Ah! Muito bom. Ela chegou sorrindo, aquele jeitão dela, o cabelo vermelho — não, não foi na época do cabelo vermelho, foi antes, o cabelo natural. — Quando ela era jovem, e já incomodava todo mundo. — Para com isso… Ela veio cantarolando meu bem você me dá água na boca. Uau, arrepiei! …
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Num sebo
— Novato, arrume a loja. Pilha de vendas, lixo e rodízio. Nada de sentimentalismo. — Ih, um Autran Dourado! A barca dos homens… Partida sem volta, destino incerto. Últimos lugares. — Isso. Vendas. — E esse Sabino? O homem nu. — Produto puro. Zero disfarces. — Nada a esconder. Só verdade crua. — Transparência total. Produto sem embalagem. — Esse é meu. Minha cara. — A cidade vazia… — Desconto de 100%. Solidão incluída. — Melhor: compre espaços, leve solidão grátis. — E esse aqui, Morro do isolamento? Velho, mas funciona. — Apartamentos exclusivos. Vizinhos? Nenhum. — Vista panorâmica. Preço: silêncio eterno. — O…
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Sobreviventes
Depois de hora e meia enfiada num ridículo roupão descartável, me esforçando para não cair da maca, e sentindo em meu corpo o frio do gel e a pressão do bastão do ultrassom nas mãos da médica também fria e gelada, entrei no minúsculo elevador da clínica pensando no desprazer que sinto por estas revisões médicas. Me fazem zilhões de perguntas que não me deixam esquecer a idade que tenho. Além do mais, ainda estou sob o impacto de uma cena muito recente: meu clínico me parabenizando pela passagem de meu aniversário. Ao me abraçar, querendo dar leveza à minha nova dezena, chamou os pedidos de exames de imagem e…
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Confesso que … vivo
Vida vivida, coleção de lembranças. As primeiras: ecos difusos, flashes sem significância. Depois, prazeres acanhados, em choque com o espanto da inocência. Custei a entender que a excitação se oculta, espera o momento certo, e retorna para provocar e se insinuar, com manhas e artifícios. Muitos ensinamentos viriam dar nome a desconhecidas emoções, e a outras inventar. Lembro da praia, jogar vôlei, ser vista, e pedir aos deuses para ser desejada. Fui atendida. Beijei, fui beijada. Amada. Cheguei muito perto do céu! Encontros, abraços, beijos, e dias inteiros pensando em mais palavras doces sussurradas, nas mãos que me mapeavam, me enlouqueciam, me encantavam. Fantasiar, imaginar, me perder em sentimentos, me…
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O Abandono como Gesto Fundador
Paro no sinal. Um homem atravessa a rua aos gritos: — Esse país não presta! Só tem ladrão! Políticos safados! Não sei para quem ele fala. O sinal abre, acelero. O homem fica para trás. As palavras não. Continuam ali, como coisas que atiramos fora e depois fingimos não reconhecer. Mais tarde, termino Frankenstein, de Mary Shelley. Uma cena breve e brutal não me deixa: a criatura abre os olhos e seu criador, Victor, recua. Não suporta ver o que criou. Abandona. O resto vem daí. Victor não é um caso isolado. É apenas alguém com poder para criar e nenhuma disposição para ficar. Esse gesto se repete em épocas,…
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Mulher de Verdade
Só você?! Balela. Aqui dentro, só eu — mas, lá fora… coleciona o que aparece: baixas, altas, mocinhas ou já passadinhas. Não escolhe. Se há fenda, ele se faz chave — e invade. Sedutor, muito. Promete músicas para suas musas. Jura que estarão nas letras. Repentista, improvisa bem. Isca lançada, cumpre-se a pesca. Comigo foi assim. A tal da música nunca existiu. Aprendi a ouvi-lo em silêncio. A medir o perigo. A antecipar o humor que entra pela porta antes do corpo. Volta sempre como na Boemia: “aqui me tens de regresso e suplicante te peço…”. Cansei das desculpas mais gastas que as solas de quem vive varrendo a própria…
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Ir à casinha é rabo!
Tô frita. Sem trabalho. Sem dinheiro. Sem namorado. Sem nada. Aceito até uma Colônia de Férias da Igreja Quadrangular. Minha mãe, vendo que eu estava péssima, conseguiu vaga num acampamento de verão. Usou cara de “não aguento mais essa menina por aqui”, uma das que elas domina como ninguém. Quando ela me deu a boa notícia, parti para os preparativos. Ao passar pelo espelho levei um susto: — Meu cabelo… mais maltratado que minha alma! Seco, opaco, parece peruca da Barbie depois do divórcio. Chuveiro, já! Hidratei, corrigi a cor com totalizante loiro dourado (minha salvação, sempre tenho em casa). Bom não ficou, mas ganhou dignidade. Agora, arrumar a…
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Três dos meus infinitos afluentes
Há memórias que dormem, mas não se calam. Ficam no fundo do rio do tempo, pacientes, à espera do instante em que a água se move e começa a contar. Ao escrever estas páginas, percebi que recordar é simples; reconhecer é o verdadeiro desafio. Recordar é abrir a caixa das lembranças. Reconhecer é olhar o outro dentro de nós, admitir que o que amamos ou rejeitamos no mundo é também reflexo do que somos. Assim, escrever tornou-se exercício de humildade e gratidão — humildade por entender que nada vivi sozinha; gratidão pelos que, sem saber, moldaram meu olhar. Se hoje vejo, é porque antes aprendi a amar — mesmo quando…
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Liberdade Doméstica
— Mãe, você demitiu a diarista! Que loucura… — Filha, tudo tem jeito. Calma. Comprei uma Robozete 5.1. — Sei não, mãe… — Século 22, querida. Os avanços se sucedem com rapidez inimaginável. A casa não vai mais ser um peso para mim. — Tomara, né mãe. Eu me dei mal com uma Doméstika 3. Dinheiro jogado fora. — Mas, comprei o que há de mais avançado — promessa de redefinir o conceito de conforto doméstico. Vai ser bom, filha. Tenho certeza. — Quando ela chegar me avisa e eu passo por aí. Estou curiosa. Minha filha é tão negativa! Uma apavorada…me liga o tempo todo. Comprei, e…
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Vem
Há músicas que me fazem sentir a tristeza de vozes em prantos. Clamam, choram — em uma palavra: imploram. A peça que acabo de ouvir, repetidas vezes, me abre o peito. Não, não, não! Dor, choro. Socorro! Meu coração ainda bate só no compasso da solidão. É um pedido de alguém isolado, sem par, em quem bate um coração cansado. Estou só… comigo mesma. Perdi, joguei fora, não sei, tudo floría antes — sei bem. E porque isso? Qual seria a explicação? Lembro. Ah, quanta saudade. Onde estão os dias do amor, da alegria? Lembranças, agora sepultadas, são ferroadas de arrependimentos. Urge que se dê adeus à solidão. Reencontrar um nós que…