Persianas
O encontro da semana será no Leblon.
Gostei, mais perto de casa.
O tema do encontro será prosa poética. Alguém já tinha dito que alguns textos meus são assim. Como assim? Nunca pensei nisso. Escrevo primeiro. Entendo depois.
Apartamento luxuoso e decorado com extremo bom gosto. Nada é excessivo. Cumprimentei os companheiros, e me sentei. Eles estavam bem adiantados, discutindo leituras. O entusiasmo com as nuanças que o poético permite era a tônica do encontro. Eu sem exemplos para dar, perdida.
Foi quando meus olhos atravessaram a rua e bateram na varanda de um apartamento, daqueles que ocupam todo o andar. Lá, uma jovem, limpava o guarda-corpo. Nossos olhares se encontraram. Envergonhada, mudei a direção do meu.
Eu, entre amigos, estreando um terninho novo e me deliciando com literatura. Ela, de uniforme e toca, testemunhando minha liberdade de fazer o que quisesse com meu tempo.
Logo pensei: trabalhei muito, estou aposentada, tenho direito a esse prazer. Vou me esforçar para participar dos debates.
Só que olhei novamente para a varanda onde a moça agora estava encostada no gradil. Seu queixo erguido e olhos duros grudaram em mim. Forcei a atenção de volta ao grupo.
Mas, não resisti, tornei a mirar a varanda. Ela ainda me fitava. Tinha um cigarro entre os dedos e lançava rolos de fumaça em minha direção.
Senti que muito mais do que a largura de uma rua nos separava.
Pedi que baixassem as persianas de madeira.
Brejal, 31/07/2026