Nã, nani, nanão
Sábado, Dia dos Namorados. Vou jantar no Candelabro Italiano, um novo restaurante de Copacabana elogiado como típico da “era de ouro” de um Posto 5 boêmio.
Caramba, reservar quinze dias antes?!
Num tubinho de tecido botoné, turquesa e com um coque banana de profissional, enfrentei minha mãe-fera.
— Onde vais, com quem e para fazer o quê.
Ah, ela quer estragar tudo.
Respirei fundo,
— Vou jantar com Raul — e pensei: não quero a senhora conosco.
Minha mãe me deixava louca. Deus me livre conversar no telefone, fosse com quem fosse. Ela ouvia tudo e depois citava, tintim por tintim, o que eu tinha dito em contextos escolhidos por ela, deturpando tudo. Eram suas aulas de Moral e Cívica. Minha solução para a questão telefonemas foi: ouvir, fazer ruídos como humhum, aã e coisinhas como: não, é, talvez, pode ser, tchau. A lista é longa.
Atitude desastrosa. Perdi namorados. Tenho certeza que Interpretaram minha fala seca como falta de interesse, garota esquisita, fria, quero nada com ela não.
O jantar no Candelabro foi inesquecível. Voltei dele noiva!
Naquele dia quebramos mais um daqueles modelitos sociais que ninguém sabia quem tinha inventado, mas todo mundo obedecia. Pedir a mão da jovem para pai ou mãe? Nã, nani, nanão. Chegamos ao restaurante, couvert de pãezinhos quentes com manteiga enquanto o nhoque gratinado e o talharim Alfredo eram preparados.
Raul não pediu minha mão, não se ajoelhou segurando caixinha de anel. Simplesmente disse:
— Queremos viver juntos, então, estamos noivos.
Um anel de brilhante foi para meu dedo e pronto.
Aí, novidade: a ocasião pedia vinho. Já tinha experimentado bebidas alcoólicas mas, todas tinham gosto de perfume engarrafado. Eu gostava de Guaraná Brahma.
O garçom sugeriu um vinho branco: o Liebfraumilch, mais conhecido como “vinho da garrafa azul”, um sucesso de vendas e sinônimo de enjoo, dor de cabeça e otras cositas más. Bebi rápido demais, o danado subiu, subiu e subiu — e eu junto. Ria de tudo, de nada, ria o tempo todo. Garçom e clientes riam. Fui o show do restaurante.
Lá pelas tantas, o enjoo se manifestou. Corri para o toilette e esvaziei tudo por lá. Andar em linha reta? Uma proeza. Voltei para a mesa escorada pelo garçom.
Cheguei em casa pálida, esverdeada.
Fui logo dizendo,
— Calada, mãe. Quando puder conto.
E me enfiei no meu quarto, fugindo dela e de mim.
Rio, 01/10/2026