Minha Escrita

Antes de ter voz, tive escrita. Escrever sempre foi meu disfarce mais perfeito. Fui uma menina silenciosa, insegura, que temia o som das próprias palavras. Mas no papel, a mágica acontecia: minhas redações, interpretações de textos e análises históricas falavam por mim com uma coragem que minha boca não tinha. Minha fala era miúda, mas minha escrita já era imensa.

Assim cresci: estudando muito, falando pouco. Aprendi que a escrita me revelava para os outros e para mim mesma. Adorava as aulas de Português! Escrever com estilos diferentes, destrinchar parágrafos classificando orações, identificar sujeitos e predicados eram jogos divertidos. 

Naquela época, sem o recurso da múltipla escolha, tinha que ler textos e interpretá-los por escrito justificando meu pensamento. As provas orais me obrigavam a falar. Minha escrita mental me conduzia.

Quando minha voz real se somou à minha escrita, me senti pronta para meu primeiro emprego: representante de um Intercâmbio entre Brasil e Estados Unidos. Tinha 20 anos, adulta ainda bem verdinha. Os pais dos bolsistas confiavam em mim e no programa. A responsabilidade era enorme. Enfrentei problemas gravíssimos, desatei nós cegos e usei muito minha escrita na correspondência profissional, em relatórios e até em conselhos. Foi um bom treino para minha carreira de professora.

Aposentada, me senti perdida. Eu à toa, sem trabalhar? Nunquinha. Então, pensei em escrever como passatempo. Matriculei-me em um dos cursos da Estação Botafogo, de Suzana Vargas. Lá conheci quem viria a ser minha mentora por 13 anos: Beatriz Albernaz. Com ela, minha escrita foi ganhando corpo e qualidade. Minha voz interior, cheia de coragem, se derramando em páginas: viva e ativa. 

Nos primeiros nove anos com Bia escrevi muito, e minha voz dentro da gaveta. Parecia satisfeita em ter meus colegas e ela como leitores. Um dia, me lembrei de uma frase de T.S. Elliot no prefácio de Trânsito de Vênus, de Harry Crosby:

“Apenas aqueles que se arriscam a ir longe demais podem descobrir o quão longe se pode ir.” 

Que empurrão! Caí de cabeça no território da  ousadia. Quão longe posso ir? Como? Agindo. 

Assim nasceu meu primeiro livro de contos: Dança das Letras, memórias e histórias. Muitos dos contos engavetados ganharam a luz das páginas, voaram para outros olhos. 

Quatro anos depois veio o segundo livro: Vermelho. Pouco depois fiz um Livro de Artista com poemas livres, Perdas Sentidas.

Ainda tenho gavetas cheias de textos que reclamam da escuridão, da solidão. Quando vou engavetar mais um deles, chego a ouvir: “Tire-me daqui, quero leitores”. 

Bia partiu, me senti órfã. Não conseguia ler nem escrever.

Em 2023, um amigo me animou a voltar. 

E agora, sob a batuta de Eduardo Affonso, tento escrever crônicas. Proposta difícil mas os resultados têm sido animadores — e sigo a acumular textos que clamam por luz e leitores. 

Mais um livro? Talvez… 

Não sou mais aquela menina que se escondia atrás das palavras. Sou a autora que liberta cada uma delas. Enquanto o tempo me for generoso, seguirei agindo, ousando e indo além. Afinal,

“A vida não é um jogo que se ganha… ou se perde… é um jogo que, com muita frequência, simplesmente não é jogado.” *

Quero jogar até o fim. 

Rio, 25/06/2026

*  Palavras de William Forrester, personagem de Sean Connery no filme Procurando Forrester. 

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