O Encontro 

Andei muito. Pensei mais ainda. Como fui marcar esse encontro? Chegar lá e dizer Sou Sininho, a do e-mail? É ridículo. Mesmo esse nome sendo o motivo pelo qual ele gostou de mim. Peter Pan foi seu herói de infância, daí seu codinome.

Isto tudo é um absurdo. Conhecer alguém pela internet, manter encontros virtuais durante três meses, conversando sobre tudo, me abrindo. Talvez ele nem exista! Sim, de fato uma pessoa recebia minhas mensagens e respondia quase imediatamente. Parecia gentil, educado e atencioso. Quase carinhoso. É, bem carinhoso. Seu modo de escrever e as palavras usadas dão provas disso. 

Será ele quem parece ser? É fácil mentir diante de uma tela e de um teclado. É só soltar a imaginação, e isso ele tem de sobra. Fui sincera, nem menti sobre minha idade. Dei uma ajeitadinha de leve numas coisas, nada grave. Talvez tenha me afastado uns cinco centímetros, no máximo, da verdade. Nunca fui perfeita e nem quero ser. E ele? 

Só faltam mais duas paradas, mais dez minutos e desço desse ônibus. 

Posso passar pelo tal barzinho e só dar uma olhada. Tento achar o camisa azul real com crachá no bolso…. É, boa ideia, mais seguro. Dou uma sacada nele, sem me identificar. Simpatizando, chego perto. Talvez me reconheça… Já sei, na hora guardo minha jaqueta rosa na mochila, solto o cabelo e ponho os óculos.

Medo! A moça do site de encontros garantiu: “Só aceitamos pessoas idôneas, todas as informações são verificadas.” Sei lá, quem quer enganar sabe como fazer. Ando muito cismada. Só arranjo namorados bostas.

Tem um cara, lá atrás no ônibus, sem tirar os olhos de mim. Será um conhecido? Sem óculos, só vejo vultos. Tenho olhos secos, nunca vou poder usar lentes de contato. Ia ver tudo, sem ficar franzindo a testa e apertando os olhos. 

Míope como meu pai, minha sina.

Quem será esse cara? Tá de camisa escura e sem crachá. Alto. Magro. Vou botar os óculos e encarar esse aí, já encheu meu saco. É até bem ajeitado, cabelo cortado rente, meio antiguinho, quase brega. O bigodinho é muito brega. Ralo, parece sujeira. Ih, ele sorriu. E agora? O ônibus tá cheio e ele tá bem longe, inda bem. Jamais vai conseguir encostar aqui. Sou capaz de aprontar um escândalo. Estou nervosa. Nada de papo, com ninguém. Há meses sem namorado. Sem ficar. Sem nada. Quando tenho um encontro, aparece paquera. Difícil administrar essas situações. 

Na verdade, sou romântica. Queria um namorado igual ao o meu irmão. Ele é dez, é mil com a namorada. Carinhoso, galanteador, cheio de surpresas e presentinhos. É gentil, incansável. Dedicado, essa é a palavra. Ele só vê a sua amada. E ela nem é lá essas coisas, é até bem chatinha.

Ih, o do bigodinho continua me encarando. Me cumprimentou. Será o filho do Seu Serafim? Justo agora fui me lembrar do açougueiro?! Estou nervosa, uma pilha, deve ser por isso. Tô suando, vou ficar empapada, a maquiagem vai escorrer, o cabelo vai murchar. Me arrumei com o maior capricho e agora vai ficar tudo uma meleca. Vou tirar essa jaqueta quente e soltar o cabelo, parar com a agonia, fazer alguma coisa. O cara tá vindo pra cá, tô perdida! Tá fazendo o maior esforço, quer achar caminho. Já está quase aqui. Devia ter ficado em casa, quieta no meu canto. Pensar, rápido. Ele tá perto, está muito perto. Vou… 

— Ai! Pô, cara. Meu pé! Tu esmagou meu dedinho.
— De-de-descuuulpa,fo-o-o-i ssssseeemmmque-que-rer.  

— Desculpa o cacete! Tô de saco cheio. Tu tá me encarando lá de longe faz um tempão. Quer alguma coisa? Te conheço por acaso? 

— Vo-vo-vo…Tôoooo ner-ner-vo-o-so.
—Tu tá é gago. Nervosa tô eu. Dá licença, vou descer aqui. 

Consegui descer da porcaria daquele ônibus, mancando e com meu dedinho inchando e doendo muito. Na certa quebrou. Saco! Acontece de tudo comigo, ô azar. Valha me Deus, o gago magrela tá vindo. Esse cara vai levar uma bolsada. Acabo dando na cara dele!

— Vo-vo-vo-vo-cê é-é aaa Siiininnho? 

Estou num táxi, de volta. Neguei ser a Sininho, claro. Ridicularizei o nome. Joguei todas as minhas frustrações sobre ele e despachei a figura. Quando penso em minhas palavras, sinto vergonha. Como ser a Sininho dele? Ele nunca poderia o meu Peter Pan.

Rio, julho de 2025

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