Falta Um
Ele chegou em casa com um embrulho. Algo raro, quem gostava de embrulhos era ela.
Ela, esperançosa, aprontou o sorriso. Bem…
Ele lhe mostrou um lindo suporte de madeira com sete cachimbos – um deles com o bojo esculpido, e de tom quase negro. Nem percebeu o desapontamento dela. Só tinha olhos para seus escolhidos.
— Mais fumo?
— Mas com vantagem, Uchí. Não vou tragar mais.
— Veremos. Fuma lá fora. Aqui só cheiros bons.
Ele levou os cachimbos para uma mesinha redonda ao lado da única poltrona da sala.
Ela murmurando, “só muda o fedor, sai um, entra outro…”
Os cachimbos brilhavam na sala de estar da casa alugada, de móveis já desgastados pelo uso dos diversos inquilinos que os antecederam.
Final da tarde, hora de acender o primeiro. Pôs tabaco no fornilho, acendeu e sugou com força. Tossiu. “É bem diferente”. Riu, gestos foram se encaixando, e a tarde terminando.
Ele, ao guardar as ferramentinhas para a limpeza dos fornilhos e piteiras, chamou-a,
— Uchí, queres aprender como se limpa cachimbo?
Ela veio, olhando firme para ele,
— Pra quê? Quero distância desse fedor.
— São objetos caros, delicados. Precisam de manutenção.
— Tu é que precisas de manutenção. Tu escolheste? Tu cuidas.
O tempo esquentou entre eles, mas baforadas frequentes dissolveram o pior.
Em pouco tempo somente sobre a mesinha…Seis lindas peças de diferentes madeiras. Sim, uma tinha sumido. Ela não suportava que se tocasse nesse assunto. O sumido não deixou explicações.
Pouco tempo depois, entregaram a casa. Empacotaram tudo. Um queimado no tampo da mesinha redonda ficou olhando para eles.
Retornaram ao endereço de origem, acompanhados dos filhos, cachorros e cachimbos.
De vez em quando ele os manuseava com carinho, suas mãos dando e recebendo. Ela sentia que importantes trocas aconteciam.
Como eram bonitos, integrou-os à nova decoração da casa. Escancarava janelas para que a brisa do mar e o perfume das flores renovassem os ambientes.
Para os filhos, desde o início, os cachimbos não existiam. Eram do pai.
Poucos anos depois, ele saiu para trabalhar e não voltou. Os cachimbos na sala, junto à poltrona vazia. Ela passou a cuidar deles com carinho. Tirava-lhes o pó e ficava um bom tempo num espaço sem odores, sem calor.
Ele escolheu, ele guardou.
Ela aceitou, ela guardou.
Os filhos herdaram, os filhos guardaram.
Os cachimbos viraram personagens de histórias contadas aos netos. Sempre em destaque, ora na decoração, ora como testemunhas de um tempo.
Os cachimbos estão com o filho mais velho, num altar para coisas especiais.
Por curiosidade, perguntei se ele sabia do destino do desaparecido.
Ele pigarreou e confessou,
— Eu peguei para brincar de detetive. Nunca mais o encontrei.
Rio, 11/07/2026