Escrevo, tenho voz
Desde bem pequena me apaixonei pelas letras. Caladas, eram movimento e leveza. Rabiscos mágicos, em folhas e folhas, embalavam minhas mãos. Durezas perdiam arestas. O silêncio falava alto em mim, e me bastava.
Eu as regia, elas obedeciam. Se transformaram em sílabas, palavras, frases. Falaram comigo! Monotonia? Não mais. Eram o brilho intenso do meu quarto. Criei personagens, diálogos sobre o que era meu — e eu ainda não sabia. Até confidências eu fiz!
Durante muito tempo tive saudades das minhas vogais com cedilha, consoantes com acento circunflexo… Mas, o sentido se impôs. Aceitei. Respeitei.
Ágeis, se juntavam em frases para serem lidas, ouvidas e entendidas. Minha brincadeira passou a ser ler — gibis, livros, revistas. Inscrita em bibliotecas públicas, voltava para casa com um amigo-livro que me contaria histórias. Secura e aridez diluídas, quase ausentes.
O resgate de minha voz se acelerou com minhas cartas para avós e tias. E para amigos de correspondência em terras distantes — queriam me conhecer.
Mais tarde, com meus trabalhos fotográficos autorais, minha voz começou a ser ouvida. Corajosa, participei de exposições. Nunca me vi tão ousada.
Lecionei por anos. Minhas amigas sempre comigo, guiando, inspirando. Treino eficaz, uma voz forte brotou.
Quando parei de lecionar, decidi escrever.
O meu amor pelas palavras foi fundamental. Elas me mostravam suas personalidades: fortes, meigas, alegres, tristes…Todas sabiam bem onde e como queriam estar — o que podiam ser.
“Farfalhar”, adoro essa palavra. Seu som canta e dança. É alegre. Palavra completa.
Abri gavetas, soltei alguns dos muitos contos em dois livros. Queriam vida própria.
Desde então, minha fala vem sendo lapidada.
Como escrevo? Bia Albernaz, minha mentora por 13 anos, observou: “Ruth nos mostra quantos vínculos há entre as memórias e as histórias. Assim a vida flui e se faz presente, assim se supera a lógica cronológica e se salta no tempo da literatura, que ecoa o passado e se projeta para o desconhecido.”
Minha escrita é concisa, de discreto humor. Toco em assuntos pessoais dolorosos sem cair em melodramas.
Acho difícil uma máquina me replicar, conseguir ser como eu, com meus erros e acertos. Não sentiu nem viveu o que eu vivi.
A máquina talvez possa me fazer mais atenta à estrutura do texto, me mostrar repetições e falhas gramaticais, questões técnicas. Sempre caberá a mim resolvê-las como quiser e achar melhor.
A máquina usa as palavras. Eu as amo.
Rio, março de 2026