Três dos meus infinitos afluentes
Há memórias que dormem, mas não se calam.
Ficam no fundo do rio do tempo, pacientes, à espera do instante em que a água se move e começa a contar.
Ao escrever estas páginas, percebi que recordar é simples; reconhecer é o verdadeiro desafio. Recordar é abrir a caixa das lembranças. Reconhecer é olhar o outro dentro de nós, admitir que o que amamos ou rejeitamos no mundo é também reflexo do que somos. Assim, escrever tornou-se exercício de humildade e gratidão — humildade por entender que nada vivi sozinha; gratidão pelos que, sem saber, moldaram meu olhar.
Se hoje vejo, é porque antes aprendi a amar — mesmo quando o amor chegava disfarçado de dor. Meu rio segue correndo, recebendo afluentes que me transformam.
Que o leitor caminhe comigo sem pressa.
Um tio materno foi meu Afluente de Luz. Ele guiou minhas primeiras leituras e abriu minhas janelas para o mundo. Ao ver-me com M. Delly, disse:
— Tuas janelas estão abertas… mas o mundo ainda não entrou.
E colocou em minhas mãos Jane Eyre. Pela primeira vez, vi uma mulher dona de sua voz.
— Vês? O amor é bonito, mas não é gaiola.
Ele me tirou da correnteza mansa das ilusões e me lançou no rio mais profundo do pensar. Ensinou-me que ler não é fugir, é atravessar; que palavras só valem quando nos transformam. Em cada página que escrevo, vive um pouco desse olhar que me dizia:
— Abre as janelas….o mundo está à tua espera.
Aos 18 anos, em Nebraska, encontrei meu Afluente do Encantamento no meu professor de Inglês e Literatura Universal. Uma pessoa muito especial. Seu entusiasmo era uma ponte: com ele entrei nas histórias, percorri séculos e compreendi os caminhos da língua inglesa em formação. Ele não apenas ensinava — ele acendia.
Mais tarde, quando me tornei professora, tentei seguir seu gesto: oferecer aos meus alunos não só conteúdo, mas o prazer de descobri-lo, o convite para aprender, se inspirar e criar.
Muitos anos depois, tive o prazer de lhe agradecer pessoalmente por ter me encantado a ponto de eu procurar ser como ele em minha vida profissional.
Meu mestre de fotografia artística foi, e é, meu Afluente da Expressão. Ele me ensinou que a imagem não é técnica nem ofício: é forma de existir. Sua serenidade vinha de quem olha o mundo por dentro, atento às nuances que a maioria não vê. Para ele, a luz não era apenas luz: era humor, comportamento, respiração.
Foi um afluente decisivo do meu rio interior, trazendo a água da expressão — essa água que não imita o mundo, mas o revela.
Hoje, ao olhar para trás, vejo que cada pessoa que tocou meu caminho deixou uma marca de água no meu próprio curso. Meu tio, meu professor, meu mestre, e muitos outros abriram em mim um espaço que eu não sabia ter. Carrego-os como quem leva o coração submerso: pulsando em silêncio, mas guiando a corrente.
E meu rio segue aprendendo a correr.
Rio, 11/12/2025