Sobreviventes

Depois de hora e meia enfiada num ridículo roupão descartável, me esforçando para não cair da maca, e sentindo em meu corpo o frio do gel e a pressão do bastão do ultrassom nas mãos  da médica também fria e gelada, entrei no minúsculo elevador da clínica pensando no desprazer que sinto por estas revisões médicas. Me fazem zilhões de perguntas que não me deixam esquecer a idade que tenho. Além do mais, ainda estou sob o impacto de uma cena muito recente:  meu clínico me parabenizando pela passagem de meu aniversário. Ao me abraçar, querendo dar leveza à minha nova dezena, chamou os pedidos de exames de imagem e os laboratoriais  de “revisão geral dos 70 quilômetros”.  A tentativa de brincadeira aguçou meus medos e aumentou meu mal-estar.  Não gosto de comemorar aniversários e nem de constatar os sinais da passagem do tempo em mim. Detesto envelhecer e tenho medo da morte. Ultimamente,  meus pensamentos  giram em torno do tema “como-sofrer-a-passagem-do-tempo-sem-ficar-deprimida”. Como?! 

  Sem respostas salvadoras para minhas aflições, decidi caminhar pelo bairro de minha adolescência. Aproveitaria para ir até o Forte de Copacabana fazer a Prova de Vida. Tenho que cumprir esse ritual anualmente para continuar a receber o benefício deixado por meu pai. 

Quando cheguei ao calçadão, meus passos ficaram mais firmes. Pisar nas ondas preto e branco da famosa calçada, o cheiro de maresia, o sol gostoso na pele e o mar calmo e azulado me deram novo ânimo. Imediatamente, meus olhos se voltaram para os prédios da Avenida Atlântica. Queria reencontrar os edifícios antigos e de valor arquitetônico que  eu tinha aprendido a admirar nas caminhadas de antigamente, quando a cidade era menos violenta e era seguro andar a pé a qualquer hora do dia. 

  O primeiro que vi foi o meu favorito, o Edifício Mondesir — número 3288 da Avenida Atlântica. Um prazer vê-lo bem conservado, com pintura nova, rejuvenescido.  Eufórica, me pus  logo a sonhar…morar em Copacabana, retornar às origens, fazer tudo a pé, tomar banhos de mar como antigamente…e fui me empolgando com a tessitura das possibilidades que pipocavam no mesmo ritmo de meus passos.

Cumprida a exigência da Aeronáutica, quis rever meu antigo endereço, o Edifício Mamoré,  na esquina da Joaquim Nabuco com a Nossa Senhora de Copacabana.  Encerraria as visitas ao passado  com o melhor cafezinho do bairro, o do bar Silva Cruz, ao lado do Mamoré. 

Rapidamente cheguei ao local e murchei — o bar fechado, a grade metálica verde baixada e  coberta de pichações, garatujas horrendas que degradam qualquer fachada ou muro. A marca da antiga casa comercial estava parcialmente coberta por um tosco cartaz  de “aluga-se” escrito em vermelho sobre  uma folha de papelão. Dava para ler  “Silva”, mas “Cruz” se escondia por trás de um lixo visual de causar arrepios. Eu não sabia do fechamento do bar! Meu principal ponto de referência para encontros com amigos tinha falido.

Cenas me vieram à lembrança — as conversas se  com amigos nos finais das tardes, encostados nos carros que naquele tempo podiam estacionar ao longo do meio fio. Entre flertes e namoricos, falávamos sobre qualquer assunto. Com eles tinha aprendido a dançar twist e chachachá — eram comuns as festinhas de sábado à noite, quando treinávamos os passos das danças mais populares da época. Mas a consciência de que dois de meus irmãos não estão mais em cena, e nem  Vitor,  Aloizio,  Fernando Quiança, Eduardo Café e tantos outros, acabou com  todos os meus sonhos de voltar a morar no Posto 6. Imóvel, desmoronada encarava os restos do querido bar. 

Lentamente a imagem do Edifício Mondesir me tomou e me trouxe de volta ao presente. Nobre e altivo, o prédio resistia bravamente aos desgastes do tempo. Sim, velho, mas digno de respeito. Atravessei a rua e, em passos rápidos, me dirigi para a rua Rainha Elisabeth, em direção  a Ipanema.  Na Praça General Osório pegaria o metrô e iria para  meu cantinho na Gávea.

Passei pelo Edifício Rio Verde.  Gostei do que vi. Mais adiante parei para apreciar o Acari, na esquina da Conselheiro Lafaiete.  Dois belos e honrosos sobreviventes que mantinham sua elegância e esplendor! Ah, fiz as pazes com meu dia. Me senti também uma sobrevivente. 

Mais calma, e sem nenhuma pressa, fui à casa de uma amiga para um bom papo, suquinho de caju, muito carinho e ótimas reminiscências. 

 

Brejal, 6/11/16 

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