• Os nomes dos personagens em Madame Bovary

    Em sua introdução à edição de Madame Bovary do “Le livre de Poche” da Hachette (2000), a professora e ensaísta Béatrice Didier levanta pontos interessantes sobre a importância da escolha/criação do nome da personagem principal, da heroína do romance. Ela afirma que a escolha do nome de um personagem é um ato capital. É com esse nome que o autor vai cristalizar todas as suas frases e palavras fazendo com que este ser, inicialmente de papel, ganhe vida e nos dê a ilusão de estar vivo, de ser real. Ela diz que Flaubert foi muito feliz ao encontrar e aproximar duas palavras: Emma e Bovary. O nome Emma está impregnado de sonhos…

  • Menina, cão, quintal, família feliz

        O que dizer desta fotografia? Vejo crianças, um cachorro, e casas. Uma menina, bem à vontade junto ao cão, cuida de conter o animal. Toca-o como que pedindo que obedeça e colabore para que sua agonia acabe e ele possa sair do lugar da obediência e da submissão. E ele procura sinais de agrado no dono, o fotógrafo, que o posicionou e ordenou que ficasse sentado naquele lugar. Só meu pai tinha voz de comando sobre o cão. Sou a menina solícita. Me acostumei a ver desde muito cedo as imagens colecionadas por minha mãe em um álbum intitulado My Book Treasure. É um grande álbum marrom de…

  • O presente

    Noite fria, muito escura. Nós três, os maiores, grudados, bem juntinhos, sentados no primeiro degrau da escada. O menor passava pra lá e pra cá no colo da babá apressada, arrumando coisas, pegando roupas nossas no quarto dos fundos, no andar de cima, pela casa. Não sei bem o que ela fazia, mas estava muito ocupada. Nossa casa cheia e continuando a se encher de pessoas solenes, sérias. Umas conhecidas e muitas outras não. Onde estava minha mãe? Continuava sumida. Tínhamos voltado do colégio e ela não tinha aparecido para nos receber. Eu ouvia  seu choro, mas quando a procurava só via as costas de mulheres encurvadas olhando para algum ponto…

  • “Hibisco Roxo”, a tirania do colonizado

    A leitura de Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie, nos revela um livro interessante que trata  de colonização e seus efeitos sobre os colonizados: opressão, medo, extremismo religioso e cizânia entre e dentro de famílias. O livro fala também da incompatibilidade na solução de continuidade entre a Nigéria colonizada e a Nigéria independente.  Há dificuldades em relação à coexistência dos antigos valores nativos – reprimidos pelos colonizadores – e os valores adquiridos/impostos pelo longo tempo de colonização. Por terem sido assimilados, tais valores adquirem força na nação independente e encontram espaço para existirem “livremente”. A luta pelo poder político continua a existir na Nigéria independente, em detrimento da democracia e da liberdade de pensamento…

  • O ardor de uma escrita

    O escritor Sandor Márai nasceu na Hungria em 1900, época em que era forte o nacionalismo, sentimento fundado tanto na fidelidade às próprias origens quanto numa lealdade quase absoluta à pátria. Tanto uma quanto a outra estão presentes no General Henrik, personagem principal de seu romance As Brasas, objeto dessa resenha. Ainda jovem e sem fazer parte de nenhum grupo literário, Márai tornou-se um dos expoentes de destaque da narrativa húngara: a crítica o definia como um mestre do estilo, o público o adorava e seus livros eram sucesso de vendas. Essa época, que vai de 1920 a 1948, aproximadamente, é a única em que Márai conviveu com o sucesso. Em…