O Abandono como Gesto Fundador
Paro no sinal. Um homem atravessa a rua aos gritos:
— Esse país não presta! Só tem ladrão! Políticos safados!
Não sei para quem ele fala.
O sinal abre, acelero. O homem fica para trás. As palavras não. Continuam ali, como coisas que atiramos fora e depois fingimos não reconhecer.
Mais tarde, termino Frankenstein, de Mary Shelley. Uma cena breve e brutal não me deixa: a criatura abre os olhos e seu criador, Victor, recua. Não suporta ver o que criou. Abandona. O resto vem daí.
Victor não é um caso isolado. É apenas alguém com poder para criar e nenhuma disposição para ficar. Esse gesto se repete em épocas, lugares e momentos distintos.
Como os portugueses que desembarcaram no Brasil sem intenção de ficar. Trouxeram consigo um mapa já elaborado e o afeto suspenso. Vieram em busca de madeira, ouro, açúcar, corpos. A pátria estava noutro lugar. Não se tratava de fundar, mas de recolher.
E assim nasce o país: vasto e provisório. Aprende a misturar o que encontra, a criar laços instáveis, a crescer com marcas que mais tarde servirão de prova contra ele próprio.
Volto ao homem do semáforo. Gritar contra o país talvez seja uma forma de se colocar fora dele. Quem grita não precisa cuidar. Basta atravessar a rua.
Frankenstein aprende a falar sozinho, observando uma família pela janela. Quando finalmente se mostra, é espancado. Nada fez além de existir. Então, percebe o essencial: não há lugar para ele.
E quando a criatura se torna violenta, Victor se diz traído.
Costumamos chamar o país de irrecuperável com o mesmo tom de surpresa. Como se não houvesse ligação entre o gesto inicial e o que veio depois. Criar não é dar forma. É ficar.
Quando a criatura fala, no final do livro, não busca absolvição. Sua lucidez desloca o horror: ele já não está no corpo, mas na consciência.
Talvez seja isso que ainda nos desconcerte: quando o que abandonamos aprende a falar.
O sinal abre.
Seguimos.
Brejal, 06/01/2026