Num sebo
— Novato, arrume a loja. Pilha de vendas, lixo e rodízio. Nada de sentimentalismo.
— Ih, um Autran Dourado! A barca dos homens… Partida sem volta, destino incerto.
Últimos lugares.
— Isso. Vendas.
— E esse Sabino? O homem nu.
— Produto puro. Zero disfarces.
— Nada a esconder. Só verdade crua.
— Transparência total. Produto sem embalagem.
— Esse é meu. Minha cara.
— A cidade vazia…
— Desconto de 100%. Solidão incluída.
— Melhor: compre espaços, leve solidão grátis.
— E esse aqui, Morro do isolamento? Velho, mas funciona.
— Apartamentos exclusivos. Vizinhos? Nenhum.
— Vista panorâmica. Preço: silêncio eterno.
— O cego de Ipanema.
— Não enxerga o mar, mas sente o sal da ilusão.
— Terceira Feira. Hoje mesmo.
— Oferta limitada: um dia comum embrulhado em rotina.
— Rotina embalada a vácuo.
— Suaves prestações.
— Pouco…mas vende.
— Um canal separa o mundo. Deste lado, você. Do outro, todos.
— Lado A: promessas. Lado B: desistências.
— Fila de desistentes. Melhor.
— Não gostei. Caixa.
— Esse é top: O processo penal. Réu: humanidade. Pena máxima: viver até o fim.
— Condenação garantida. Absolvição, só no sonho.
— Vai vender.
— Ai de ti, Copacabana. Essa já era.
— Glamour vencido. Prazo de validade expirado.
— Cartaz rasgado. Areia cercada por anúncios de nada.
— Novato, abra a loja.
Rio, 30/08/2025