Mulher de Verdade

Só você?!

Balela.
Aqui dentro, só eu — mas, lá fora…

coleciona o que aparece: baixas, altas, mocinhas ou já passadinhas. 

Não escolhe. Se há fenda, ele se faz chave — e invade. 

Sedutor, muito.
Promete músicas para suas musas. Jura que estarão nas letras. 

Repentista, improvisa bem.

Isca lançada, cumpre-se a pesca.

Comigo foi assim.

A tal da música nunca existiu.

Aprendi a ouvi-lo em silêncio. A medir o perigo.

A antecipar o humor que entra pela porta antes do corpo.

Volta sempre como na Boemia: “aqui me tens de regresso e suplicante te peço…”.

Cansei das desculpas mais gastas que as solas de quem vive varrendo a própria miséria.

Há muito que não me bate — receio recaídas.
Fiquei porque não tenho para onde ir. Essa casa foi de minha mãe. Agora é  minha.

Eis o veneno.

Quando uma canção dele não decolou, a raiva desabou em cima de mim.
Na pele aprendi a arte amarga: dissimular. Fingir. Engolir.
É a minha forma de resistência — silenciosa, mas dura.

Filhos? Jamais!
Ele quis, insistiu — pouco, com tom de quem não queria.
Prefere o conforto: casa limpa, comida no ponto, roupa dobrada.
O meu melhor estilo Amélia — que odeio de morte.

Mas, algumas horas do dia são minhas. E certas noites, também.
Envelheci. Ele acha que ninguém me quer.
Errado, erradíssimo.

Faz tempo conheci um homem decente.

Correto, me olha como se fosse inteira.

Estamos à espera de nossa casa ficar pronta. Aí, fujo.

Ele é mestre de obras: sabe erguer paredes e palavras simples.
É forte. Se o outro vier ao ataque, perde sem queixa e sem luta.

Nos nossos encontros, vivo o que me resta de alegria.
O “quase falecido” vai para os palcos; eu vou para o meu palco.
Esse homem — o meu — é gentil, carinhoso, concreto.
Não prometeu o mundo; cumpre o que promete.

Tenho um  pouco  que é muito. Me Basta.

Minha amiga está certa de que ele me enrola, que a casa talvez nem exista.
Pode ser. Nunca fui ver.
É longe, difícil encaixar nas fugas.
E, quer saber? Melhor assim.
Prefiro gastar o tempo com ele — onde for, como for, enquanto for.

Se a casa não acontecer, paciência.
O que tenho com ele me renova.
Me dá força.
Me mantém viva — por enquanto.

Brejal, 14/11/2025

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