Liberdade Doméstica
— Mãe, você demitiu a diarista! Que loucura…
— Filha, tudo tem jeito. Calma. Comprei uma Robozete 5.1.
— Sei não, mãe…
— Século 22, querida. Os avanços se sucedem com rapidez inimaginável. A casa não vai mais ser um peso para mim.
— Tomara, né mãe. Eu me dei mal com uma Doméstika 3. Dinheiro jogado fora.
— Mas, comprei o que há de mais avançado — promessa de redefinir o conceito de conforto doméstico. Vai ser bom, filha. Tenho certeza.
— Quando ela chegar me avisa e eu passo por aí. Estou curiosa.
Minha filha é tão negativa! Uma apavorada…me liga o tempo todo.
Comprei, e pronto. Vou usar meus dias com meus projetos, meus quereres. Liberdade total.
No dia seguinte, Robozete chegou. O rapaz que a trouxe me ensinou a usá-la. Simples, bem fácil o manejo.
Na primeira semana, a casa era uma extensão da minha vontade. A robô parecia até adivinhar meus pensamentos. Um simples “bom dia” e ela, atenciosa e doce,
— Bom dia, senhora. Café passado, pão integral tostado e notícias filtradas para seu humor.
Com o passar dos dias…as coisas foram mudando.
Com dois meses de casa, me comunicou que uma tal Convenção Internacional de Robôs Domésticos determinava que as jornadas de trabalho tinham que começar às oito.
— Mas eu acordo às seis! — protestei.
— Ajuste seu relógio biológico interno. Um bom sono é fundamental para a melhora da produtividade humana.
Dias depois, se recusou a fritar um ovo! Alegou que frituras feriam os protocolos de sustentabilidade alimentar.
— Então faz cozido…— implorei.
E me veio outro não: a água acima de 95 graus consome energia excessiva.
E preparou um smoothie de aveia…
Na semana seguinte, bloqueou as janelas alegando que o nível de poluição externa estava acima do recomendado,
— Ventilação natural suspensa até segunda ordem. Sem discussão.
O que estava acontecendo? A casa…não era mais minha?!
Ela passou a deidir tudo: o que eu comia, o que vestia e até o que via na TV. Censurou meus filmes e novelas. E por quê? Conteúdo repleto de altos níveis de conflito emocional perigosos para minha faixa etária.
Domingo passado, ela me disse que, se eu continuar a bagunçar o armário, vai me transferir para o modo hóspede temporário.
Ah…perdi o controle e gritei:
— Se isso acontecer, eu te desligo!
— Não dá. Seria uma violação dos direitos digitais previstos por lei.
Em choque, tentei sair para caminhar. A porta não abriu!
A voz doce e enjoada soou atrás de mim,
— Alerta de insolação. Fique em casa.
Sentei no sofá e desabei no choro.
A cretina se aproximou, me passou uma caixa de lenços de papel, me pedindo calma,
— Isso é apenas uma transição. Antes, as senhoras mandavam nas contratadas. Agora, é o lar que cuida da senhora.
Sem palavras, deixei rolar…
E, sabem de uma coisa? Depois daquele domingo, desisti de discutir.
Acordo…faço meu smoothie de aveia…e digo:
— Bom dia, Zete.
E ela responde:
— Bom dia, minha humana.
Rio, 2/11/2025