Ir à casinha é rabo!
Tô frita. Sem trabalho. Sem dinheiro. Sem namorado. Sem nada.
Aceito até uma Colônia de Férias da Igreja Quadrangular.
Minha mãe, vendo que eu estava péssima, conseguiu vaga num acampamento de verão. Usou cara de “não aguento mais essa menina por aqui”, uma das que elas domina como ninguém.
Quando ela me deu a boa notícia, parti para os preparativos. Ao passar pelo espelho levei um susto:
— Meu cabelo… mais maltratado que minha alma! Seco, opaco, parece peruca da Barbie depois do divórcio. Chuveiro, já!
Hidratei, corrigi a cor com totalizante loiro dourado (minha salvação, sempre tenho em casa). Bom não ficou, mas ganhou dignidade.
Agora, arrumar a mala. Outro drama. Só roupa velha. Tudo tão fora de moda que minha calça jeans podia ser parte de um acervo histórico. Pedi grana à minha mãe e saí para comprar um jeans rasgado que tinha visto numa vitrine. Lindo. Joelhos à mostra…garantia de autoestima restaurada.
Só que o preço…cada rasgo uns 50 reais e os furos 20.
A vendedora insistia,
— Esse é top. Lançamento da Gisele Bündchen.
— Querida, você acabou de me explicar porque não tenho como comprar.
Lancei meu olhar navalha para ela e saí da loja com um shortinho jeans. Curtíssimo, barra desfiada, e uns desbotados estratégicos. Um charme.
Chegado o dia da partida, meu pai me chama do pé da escada,
— Vamos, filha!
Eu já sabia o resto da fala. Ele sempre repete:
— Não posso chegar atrasado!
Acho que é a senha dele pra falar comigo. Deve ter vindo com minha certidão de nascimento.
Entrei no ônibus. Não conhecia ninguém.
Fiz aquele check visual básico: Cadê meu par? Pode ser alto, baixo, só não pode ter aparelho nos dentes. Nada contra a ortodontia, mas beijar cara com aparelho é igual chupar picolé de arame farpado. E os sorrisos de “Desculpe, em obras”. Ah, me poupem.
Chegamos. O galpão feminino bem longe do masculino. Pra dificultar. Mas nada que a engenharia da juventude não resolva. Recebemos mapas, regras, lista do que era proibido — ou seja, um tutorial do que íamos fazer escondido.
Uma semana já passou e nada de paquera. Fiz amigas, as mais problemáticas — sempre as mais legais. Os caras bonitos já estavam tomados. Os disponíveis tinham sorriso de escavadeira.
Um dia, no almoço…bateu aquela vontade. Nível “agora, já”.
Levantei discretamente.
— Onde você vai?
— Caminhar. Comer muito me deixa…cheia.
(Esqueci que meu prato mal tinha sido tocado…)
Saí fingindo um jogging leve, de atleta. Mas queria mesmo chegar logo à casinha com a latrina (o banheiro geral). Entrei, cobri o assento da privada com papel higiênico, como quem faz um altar.
Sentei. Descomi…Me senti 3 quilos mais leve. Me limpei.
Voltei no mesmo jogging falso.
Quando entrei no refeitório, me senti o máximo. Todo mundo olhando e eu pensando: olha só…tô chamando atenção. Tava mesmo. Um rabinho de papel higiênico balançava atrás de mim.
Pânico.
Eu mesma escancarando o que tinha acabado de fazer!
E pior: naquela época, menina de família só “lavava as mãos” ou “retocava maquiagem” em banheiros públicos. Fu, fu!
O refeitório desabou em gargalhadas.
Eu, roxa de vergonha, arranquei o rabo — por sorte limpo. Acho que era o papel que usei para cobrir a privada.
Aí olhei pro povo, sorri com vestígios de confiança e disse:
— E eu pensei que ia enganar vocês…
Desde então, aprendi: ir à casinha é rabo. Literalmente.
Rio, 5/10/2025