Silbo Gomero de Lima
Fui à Lima em busca de ceviche e para conhecer mais da gastronomia peruana que vem encantando o mundo.
Para minha surpresa, encontrei também um mundo desconhecido: povos que viveram naquela região há milhares de anos e que, numa terra árida, dominavam técnicas de irrigação capazes de transformar a paisagem.
Nos museus, as cerâmicas me impressionaram. Tinham uma modernidade absurda. Nelas estavam crenças, cenas do cotidiano, animais e figuras humanas. Os grandes mantos mortuários, feitos de algodão e fibras de camelídeos, pareciam desafiar o tempo.
Saí de lá pensando no quanto conhecia pouco da História da América do Sul.
Em meu último dia em Lima visitei o Museu Larco, alojado em uma mansão que tinha sido a residência de um homem muito rico que tinha uma coleção imensa de peças pré-colombianas.
Lá, procurei o diretor para entender porque mulheres da era colombiana se vestiam cobrindo os rostos, mas deixando um olho descoberto. Ele contou que tinha sido moda numa época. Elas queriam atrair pares e os homens, curiosos sobre o que estava oculto, caíam na teia.
Aproveitei para comentar o que tinha visto nas visitas a diversos museus da região: nos objetos de cerâmica, nos tecidos e mantos havia uma figura alta e magra de olhar duro e firme. Senti que aquele olhar queria me atravessar. Tinha cabeça de águia, olhos mirando à frente, e orelhas enormes e pontiagudas. O corpo era uma mistura de animais: mãos de garra, corpo peludo, rabo de felino. Eu via essa figura o tempo todo, em diferentes situações e épocas. Intrigada, perguntei se era uma divindade. O diretor arregalou os olhos e me olhou, movendo os lábios, o que me permitiu uma leitura labial. Repeti o que entendi: Silbo Gomero.
O diretor tapou minha boca com uma das mãos, levantou a outra em direção ao meu rosto e quase gritou,
— Jamais fale esse nome.
— Ele existiu?
— Sim. E existe. É uma divindade que, ao surgir, traz dificuldades para quem a vê. Aparição recorrente que pouquíssimas pessoas veem. Ele apareceu para lhe dizer algo. Saia daqui imediatamente, e nunca mais repita esse nome. A senhora pode se tornar um canal de poder destruidor.
O Diretor virou as costas e sumiu. Procurei meu marido em outra sala e disse que ia para o jardim. Lá fiquei repassando o que tinha acontecido. SG não me saía da cabeça. Queria me dizer o quê?
Almocei no restaurante do museu. Conversei abobrinhas com meu marido, com a cabeça cheia de SG.
De volta ao Brasil, tratei de ler o que meus companheiros tinham escrito na semana que estive fora. Para meu espanto, quase todos se referiram a SG em seus textos.
Receosa de já ter espalhado essa entidade entre pessoas próximas, reli os textos. Nenhum deles parecia assustado com SG. Pelo contrário, havia leveza, humor, um tanto de mistério e até certa simpatia pela figura.
O SG deles me salvou do SG que eu tinha conhecido em Lima.
Não comentei nada com eles.
Afinal, vai que estou enganada.
Por via das dúvidas, recomendo que fiquem atentos.
Quem avisa amigo é.
Rio, 21/09/2026