A Copa na Minha Vida

1958

Silêncio na sala. Nós de olho no carrilhão da Vovó e bem perto do rádio. Titio a girar o botão sintonizador em busca da frequência certa. A transmissão vinha com chiados, a voz do locutor desaparecendo por segundos e reaparecendo como se atravessasse um oceano. A Suécia parecia muito mais distante do que realmente era.  

Meus irmãos e eu grudamos no rádio. O tio se abanava sem parar. O carrilhão cantou 15h15 — o jogo vai começar. 

Minha mãe fugiu pra cozinha. 

A estática me deixou ouvir  “Ó pátria amada, idolatrada, salve, salve”…e mais nada. Arrepiada, continuei a cantar o Hino todo — mão sobre o coração e lágrimas pelo rosto todo. Ainda choro quando canto nosso Hino.

Minutos depois: gol da Suécia. Pânico. Pouco depois, gol do Vavá. Ninguém ficou sentado. Meu tio, de tanto socar a poltrona, quebrou o leque. Esbarrei num móvel e quase derrubei o carrilhão. 

No finalzinho do jogo, ouvi “Gol do Pelé!” e vi o chute dentro da minha cabeça. 

Saí  pra a rua. Lá uma multidão me esperava. Abracei conhecidos e desconhecidos. Senti que nós éramos UM — um Brasil forte e unido. 

Dias depois, filmes entregues, pudemos ver várias vezes o jogo pela televisão. Eu não acreditava estar realmente vendo Garrincha driblando e Pelé dando chapéu no goleiro. Uma emoção quintuplicada me invadia. 

Ver e rever o jogo em campo era quase um segundo presente. 

 

2026

Smart TV ligada, poltronas e sofá à espera. Bebidas, pastinhas e castanhas. O time desce do ônibus. Acompanhamos a procissão estádio a dentro. 

Aquecimento, escalação, atender o celular e compartilhar um pouco de aflição e temor. Mata-mata chegando embrulhado no medo. Hexa, de qualquer maneira. Difícil…

Estádio cheio de camisas amarelas, e os sabe-tudo a opinar sobre o que vemos e o que iremos ver. Caras pintadas acenam quando se veem nos telões. Metade do Hino tocado, e mal cantado. 

Começa o jogo. E replays e mais replays dos lances mais importantes ou duvidosos. Bom poder ver cores e detalhes, mas sinto falta do pequeno espaço vazio onde morava a imaginação.

Mesmo assim, gosto de assistir à Copa. De camisa canarinho me abraçando, torço, sofro e comemoro, 

Às vezes fecho os olhos só para tentar escutar o narrador perdido no meio dos chiados.

Às vezes desligo o som da televisão e procuro aquele rádio que nunca mais existiu. 

Talvez eu sinta falta da menina de 14 anos que acreditava num grito de gol capaz de desenhar um jogo inteiro.

Rio, 26/06/2026

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