Enquanto não me levanto

Ah, meu banco, amigo querido que me acompanha, me leva a devaneios.

Sento-me.

Perfumes do jasmim em flor me alcançam. O zumbido de abelhas trabalhando. E o incansável beija-flor, minúsculo, querendo um tanto do néctar. 

Um verde bonito, farto e perfumado me cerca. 

Quieta, calada, observo. 

Choveu. Nas bordas das folhas da roseira gotinhas iguais se juntaram como contas de cristal líquido. 

Olho as formigas-nômades, ágeis e inquietas fazendo a correição. Uma fileira compacta, indo, indo, indo. 

Formigas destinadas a viver mudando, sempre, sempre, sempre. 

Para onde vão?

Os jacus chegaram. Feiosos, de voos curtos e deselegantes. Vão comer as alfaces. 

Não ligo. A terra é deles, a invasora sou eu.

Dois bem-te-vis perseguem um tucano-açu! Os pequenos bicam, insistem até pôr o predador para correr. 

Um ataca, os outros defendem. 

As formigas continuam na andança. 

A luz mudou. 

Agora, com o sol a se pôr, feixes de luz atravessam as folhas e me tocam. Momento de beleza ímpar. 

É bom ficar aqui.

Estou não só aqui, mas também em outros lugares. 

Enquanto aprecio a natureza, vontades brotam. Planejo, crio, imagino novos projetos, sem esquecer que o livro ainda precisa de revisão; o portfólio espera fotografias e textos; a estufa pede adubo e cuidados contra fungos e pestes.

Penso muito.

Faço pouco.

No banco, me entrego à preguiça que faz bem. Minha cabeça viaja, vai longe e volta cheia de possibilidades. 

Mas existe a outra, o lado B, que me leva para casa, para a televisão ligada, para a rede, para qualquer coisa que seja não cumprir o planejado.

Há um descompasso entre a mulher sentada nesse banco e a mulher que se levanta.

Sentada sou artista, escritora, inventora.

Ao me levantar,  volto ao que esperam de mim: dona de casa, esposa, mãe, avó.

A do banco fica esperando.

Talvez minha idade tenha começado a me assustar.

Daqui a menos de um mês, completo mais um ano vivido.

Menos um ano para fazer o que ainda não fiz.

O livro continua esperando.

Assim como o portfólio. 

E demais planos e projetos.

Não é apenas medo de morrer.

É o medo de chegar lá com planos não realizados. Nem começados.

Ver que tive tempo, e não o usei.

O relógio me diz que estou aqui há mais de uma hora. 

Olho para as formigas.

Estão mais distantes. 

Continuam em marcha. 

Levanto-me. 

Dou três passos em direção à casa. 

Paro. 

Volto ao banco. 

Brejal, 23/08/2026

 

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