Sobre O Outro, conto de Rubem Fonseca
O conto de Rubem Fonseca, O Outro, é uma narrativa em primeira pessoa – relato claro, objetivo de alguém que vive inteiramente absorvido pelo trabalho.
Os três primeiros parágrafos mostram claramente que o narrador é um executivo de alto nível que trabalha muito e fica sempre com ”a impressão de que não havia feito nada de útil.” Leva trabalho para casa para não perder tempo e feriados o irritam. Esgotado, ansioso, e muito exigido também por ele mesmo, seu organismo não aguenta e a doença aparece: problemas cardíacos e excesso de peso.
O conto inteiro lida com os problemas desse homem que vive em função do trabalho. Em momento algum há menção de família, amigos, prazeres na vida dele.
No dia em que passa mal no escritório, tinha sido abordado pela primeira vez por um desvalido. O necessitado e seus pedidos são um peso a mais. O estresse aumenta, ele passa mal e fica sabendo que sua vida está em risco.
Tenta mudar, desacelerar seu ritmo de trabalho. Aceita fazer caminhadas e ter um novo regime alimentar, mas mudar de vida, trabalhar menos lhe parecem objetivos impossíveis de alcançar. Ainda por cima, o mendicante o segue, com pedidos contínuos de mais e mais ajuda. Esse miserável, um homem alto, forte, de rosto cínico e vingativo pode bem ser uma metáfora. Caminhar poderia lhe dar sensação de liberdade, de gostar de estar fora do escritório mas algo tão pesado quanto seu trabalho o atinge e desassossega
O pedinte também pode ser uma projeção do narrador que sabe estar precisando de ajuda. O executivo só sabe trabalhar. Quando se afasta por uma ou duas semanas não tem o que fazer, não consegue ler e nem ver televisão, não encontra prazer em sua casa. Cuidado, amor, carinho parecem não existir na vida dele. Não consegue dormir, tem que tomar tranquilizantes. Impaciente, irritado e sempre pensando no escritório, volta a trabalhar. O mendicante some por uns dias ( será que por estar o narrador satisfeito com a volta ao trabalho, por estar onde quer estar?) .
Mas, nas caminhadas seguintes, o pedinte volta a aparecer, com questões mais dramáticas, fazendo o executivo ceder (às exigências e ao peso do trabalho sobre ele?).
Pressão subindo, descontrole total, ele resolve parar de trabalhar por dois meses. Consegue, com dificuldade ir entrando num ritmo menos acelerado, gostando mais de ter tempo livre – apetite aumenta, assiste mais TV, o sono retorna, fuma menos e anda o dobro do que andava antes. Sente-se ótimo, tranquilo e pensando seriamente em mudar de vida. Faz caminhadas sem assédio nenhum.
Mas, parece que o trabalho o chama, os vínculos não estão cortados – o mendicante reaparece, forte e ameaçador. Não aguentando mais, o narrador vai até em casa dizendo ao pedinte que esse será o último pedido que atenderá. Em vez de dinheiro, pega uma arma e dá um tiro no miserável – e vê que ele era um menino franzino, pequeno, pálido e magro. É o momento em que o narrador vê o outro pela primeira vez, ele que vivia centrado nele mesmo.
Também pode-se interpretar que o executivo esteve o tempo todo em luta contra algo não tão imenso e ameaçador como parecia.
Rio, 5/08/20