Duas Vozes
INTEIRA
Porta destrancada. Que bom.
Mostro o boletim — tudo nota dez. Ela vai gostar. Tem que gostar.
Entro. O chão range.
Ela não levanta os olhos.
Lá dentro era escuro, não de luz — de atenção.
Ela está de cara fechada. Melhor ir para o quarto.
Jogo a mochila no chão. Um barulho pequeno.
Nada.
Na escola eu era excelente. Hoje sei por quê.
Cadernos impecáveis. Letra redonda. Respostas completas.
Me viam.
Seguro o boletim com cuidado. Não pode amassar.
— É para assinar.
Ela o olha. Assina. Devolve.
— Não fizeste mais que tua obrigação.
Frase seca. Sem abraço.
Meus irmãos entram correndo. Ela pergunta se estão com fome.
Eu mostro o boletim. Ela pergunta se guardei meus sapatos.
Dez é pouco?
Qual é o número que faz sorrir?
A babá morreu. Virou estrela.
Fui procurar a mais brilhante.
Se eu brilhar, terão de me ver.
Céu é cemitério?
Ela me vê lá de cima?
Eu vi o enterro. O que sobe? O que fica?
Eu não sabia chamar isso de invisibilidade.
Demorei a entender.
Eu não estudava para aprender.
Estudava para existir.
Fui para longe. Bolsa de Estudos. Outra casa. Outra língua.
Quando eu falo me ouvem.
— Ficou muito bom.
Gosto daqui.
Se interessam por mim.
No começo achei estranho.
Depois entendi: não era defeito.
Era silêncio demais.
Hoje o cenário é outro.
O medo não.
Não temo o corredor escuro.
Temo a sala iluminada onde termino uma frase e ninguém responde.
Temo enviar uma ideia e ela desaparecer na tela.
Às vezes insisto..
Outras, me calo.Quando não há escuta, paro.
Desisto um pouco.
Aprendi cedo a fazer pouco barulho.
Ainda estou desaprendendo.
Excelência não garante presença.
Garante esforço.
Hoje já não levo boletins.
Levo textos.
Digo que não importa o retorno.
Mas deixo o celular ao lado.
Espero que vibre.
Não pelo trabalho.
Pelo gesto.
Quando alguém me olha e diz que ficou bom, há um segundo de luz dentro de mim.
Eu sorrio. Pequeno.
Não é alívio.
É alegria.
Sei levantar meus olhos.
Rio, fevereiro de 2026