Vem
Há músicas que me fazem sentir a tristeza de vozes em prantos. Clamam, choram — em uma palavra: imploram. A peça que acabo de ouvir, repetidas vezes, me abre o peito.
Não, não, não!
Dor, choro. Socorro!
Meu coração ainda bate
só no compasso da solidão.
É um pedido de alguém isolado, sem par, em quem bate um coração cansado.
Estou só… comigo mesma.
Perdi, joguei fora, não sei,
tudo floría antes — sei bem.
E porque isso? Qual seria a explicação?
Lembro. Ah, quanta saudade.
Onde estão os dias do amor, da alegria?
Lembranças, agora sepultadas, são ferroadas de arrependimentos.
Urge que se dê adeus à solidão. Reencontrar um nós que existiu tem de acontecer. Anseio por calor, trocas de carícias, de afagos.
Não, não, não!
Adeus, solidão.
Meu coração quer bater
por mim, por ti, por nós.
Ah, os corpos unidos, pele com pele. Euforia e êxtase insaciáveis. Momentos agora instáveis, levados por nuvens carregadas de chuva e tempestades.
A melodia insiste. Não sei quem se lamenta, se ela ou eu. De súbito, o ritmo se acelera. Notas se atropelam, como ponteiros que devoram as horas.
Para onde foram esses dias?
Quem sabe? Quem sabe?
Preciso de explicação.
Eu perdida nesse turbilhão — tudo em mim é confusão. O que parece ser da música está em mim. Sons perdidos me devoram e aniquilam. Confusa, me entrego a meu abandono, ao meu profundo vazio.
Meu coração ainda bate
só no compasso da solidão.
Me desespero. Respiro com dificuldade.
O tempo corre; nele me perco.
Desnorteada, sem explicação
As harmonias me penetram mais e mais, me rasgam, torcem e retorcem. Juras quebradas, e promessas esquecidas me ferem.
Juraste que virias, que ficarias,
meus vazios preencherias,
não me deixarias jamais.
Onde estás? Pra onde foste?
O que é da melodia, o que é meu? Sim, ambas clamamos por companhia.
Ah, volta, vem, me abraça, afasta a maldição de ser só.
Viver só, não quero — maldigo.
Quero sentido, amor e companhia,
alegria, carinhos sem fim.
Ouça meu lamento; te imploro:
vem, chega, me abraça.
Eu te espero.
Uma outra voz me alcança,
— Mãe, você quer almoçar cedo ou um pouco mais tarde? Preciso confirmar a reserva.
Ainda sem saber quem me fala, custo a responder.
— Hello, manhê…é seu aniversário, combinamos almoçar juntos, todos nós.
Ah que bom! A realidade é de festa, união e celebração da vida.
Sim, sim, sim:
dias melhores virão.
Sinto, antevejo, desejo.
Alegria da vida, invade-me.
Vem!
Respiro aliviada: a música acabou.
Rio, 14/09/2025